Nas últimas décadas, a terapia floral de Bach se converteu em uma das principais terapias naturais ao redor do mundo. Oferece uma série de recursos frente a problemas da vida cotidiana, que vão desde os mais domésticos e simples quanto os mais profundos. Estão aparecendo trabalhos que demonstram cientificamente sua eficácia, apesar dos preconceitos por parte dos inquisidores do “pensamento único”[1].
Um detalhe muito interessante é que se trata de uma terapia em contínuo crescimento, havendo diversas linhas de trabalho abertas. Creio que está enganado quem pensa que os florais de Bach são um tema concluído, onde tudo já está dito. Não se deve, nesse sentido, confundir a limitação pessoal, ou o cansaço que o aprofundamento sistemático em qualquer disciplina costuma gerar, com as fronteiras da terapia em si.
O que fez com que alguns terapeutas e estudiosos se dedicassem por completo à terapia floral de Bach, além de sua eficácia como técnica terapêutica, foi seu atrativo cunho filosófico e evolutivo. Isto, mais que somente um valor agregado, é seu tesouro mais precioso, e algo difícil de encontrar em outros sistemas florais, muitos se apresentam como uma coleção de essências sem um aparente eixo vertebral. O sistema Bach, ao contrário, se apresenta como um método completo e autocontido, com uma surpreendente coesão interna.
No meu modo de ver, o Dr. Bach não concebeu seus florais como uma espécie de substituto de uma medicina que, já em sua época, começava a ser agressiva; mas sim, como um sistema de evolução espiritual, crescimento pessoal ou inteligência emocional, três conceitos que no fundo querem dizer o mesmo. Muito comprometido também com o que denominou «minha luta pela humanidade que sofre», buscou recursos de ação rápida, como se depreende de alguns usos incipientes que eu chamo de Padrões Transpessoais®.
Basicamente, como já se disse tantas vezes, Bach define a encarnação como um dia de escola no transcurso de um ano letivo. Para ele, a alma se veste de carne (na verdade, se reencarna), recobrindo-se de uma personalidade, ou tipologia, que já traz implícitos o defeito a corrigir e a virtude a desenvolver, ou lição a aprender. Para ele, ao encarnar, tal personalidade elege as circunstâncias que lhe permitam uma melhor aprendizagem[2], algo assim como a escola onde se lecionará o ensinamento previsto. Nessa escola serão ministradas uma ou duas lições por curso (por encarnação). Eu sempre brinco que espero que me tenha sido destinada uma só lição. E fácil.
Além da lição principal e concreta ajustada a cada um dos 12 tipos de personalidade, a vida como escola traz, sem dúvida, uma série ilimitada e permanente de ensinamentos. Segundo o Caibalion, um dos 7 princípios do Hermetismo é: assim como é acima é abaixo. Daí entendemos que nossa tendência é reproduzir na vida “aqui embaixo” geometrias e padrões preexistentes “lá em cima”. Para esclarecer melhor isso, utilizo uma analogia com a escola tradicional que me ajuda muito.
Os programas de estudo tradicionais propõem um conteúdo programático determinado, geralmente amplo, mas, efetivamente, é escolhido um tema específico para a prova. Mesmo que se tenha estudado todo o conteúdo, o que realmente vale nota é o que caiu na prova. Na vida, o conteúdo que caiu na prova é a lição a aprender, ou defeito a corrigir, ou a virtude a desenvolver. Assim, podemos falhar na prova e repetir o curso, ou passarmos ao ano seguinte com matérias pendentes, ou, melhor ainda, sermos aprovados.
As lições a aprender, ou virtudes a desenvolver, se apresentam como potencialidades da alma ou do Ser Superior, o equivalente ao que Roberto Assagioli chama de “arquétipos superiores preexistentes no inconsciente superior”, descrito magistralmente por Paolelli como o ático da consciência[3]. Bach enumera essas lições e as associa com os Doze Curadores, os primeiros 12 florais do sistema.
Na prática, uma pessoa com tipologia Mimulus deverá superar o defeito do medo (eu gosto mais da palavra temor) e assim poder desenvolver a virtude (ou aprender a lição) da compaixão. Coisa que não pode conseguir enquanto seja um evitador e, portanto, se refugie no isolamento para diminuir sua ansiedade. Assim, a compaixão se apresenta como uma lição claramente interpessoal, já que se trata de ações direcionadas aos demais. Tenho visto algumas vezes clientes manifestamente Mimulus se conectarem espontaneamente com este grande valor da compaixão ao melhorar seu estado; e isto sem que eu lhes tivesse explicado nada, apenas com o uso da essência.
Muitas lições a aprender correspondem exatamente ao contrário do defeito a corrigir. Outras, como no caso de Mimulus, são mais complexas, não o oposto direto. Algumas intrapessoais, outras interpessoais.
Para servir de ajuda e assim catalisar esse aprendizado transcendente que representam as lições a aprender, Bach produziu seus florais. Quer dizer, o uso de cada essência floral vai facilitar o aprendizado da lição correspondente.
Mas, obviamente, tudo isso tem muitos prós e contras e levanta muitas dúvidas, além de um sem-fim de incógnitas, que este artigo, que pretendia ser curto(!), não pode abarcar. Minha intenção é simplesmente ressaltar, ou lembrar, que os florais de Bach são muito mais do que estamos acostumados a pensar: são, na realidade, verdadeiros mestres na escola da vida.
[1] Paolelli, Ermanno. Neurocuántica: La nueva frontera de la neurociência. El Grano de Mostaza, Barcelona, 2015.
[2] Veja: Barnard, Julian. Coletânea de Escritos de Edward Bach. Blossom Editora. São Paulo, 2018, pág. 115.
[3] Paolelli, Ermanno. Op. cit.
Dr. Ricardo Orozco é médico e há quase 40 anos se dedica à terapia floral; é autor dos livros Padrão transpessoal dos florais de Bach, um importante instrumento terapêutico e Recursos e estratégias para atendimento em terapia floral, traduzidos para português pelo Centro de Estudos Florais.